Tragédia de Chernobil faz 30 Anos

ACIDENTE NUCLEAR

Ucrânia, Rússia e Bielorrússia recordam o desastre de 26 de abril de 1986 separadamente

Os três países eslavos envolvidos recordam o acidente de 26 de abril de 1986 cada um a seu modo, conforme suas diferentes referências políticas e econômicas.

fonte: El Pais

PILAR BONET  Moscou

Na Ucrânia, onde Chernobyl está localizada, os funcionários das centrais nucleares convocaram para esta terça-feira uma manifestação na frente do Ministério da Justiça, em Kiev, para reivindicar o bloqueio das contas bancárias da Ergoatom, a maior distribuidora de energia elétrica do país. Os trabalhadores alegam que o bloqueio das contas da empresa, a pedido de um dos credores da companhia, impedirá que ela pague o fornecimento de energia nuclear às centrais da Ucrânia, assim como o armazenamento dos resíduos e, eventualmente, o salário dos funcionários.

A view of the abandoned city of Prypiat, near the Chernobyl nuclear power plant March 31, 2011. Belarus, Ukraine and Russia will mark the 25th anniversary of the nuclear reactor explosion in Chernobyl, the place where the world's worst civil nuclear accident took place, on April 26.  REUTERS/Gleb Garanich  (UKRAINE - Tags: DISASTER ENERGY ANNIVERSARY ENVIRONMENT BUSINESS CITYSCAPE)


Chernobyl está em processo de encerramento de atividades e fechamento desde 2000. Em novembro será instalado o chamado arco, uma construção única em seu gênero, que deverá proteger o sarcófago construído sobre o quarto reator (o que sofreu o acidente) contra qualquer possível vazamento radioativo, segundo afirmou ao semanário Zérkalo Nedelii o diretor da central, Igor Gramotkin. O projeto do arco, destacou ele, custa 2,5 bilhões de euros (cerca de 10 bilhões de reais) e dele participam 28 países, além do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, que é o administrador do fundo de Chernobyl. Gramotkin explicou que o terceiro reator já pode ser considerado uma instalação não nuclear; o segundo e o primeiro blocos também passarão a essa categoria neste ano, quando se concluirá a eliminação de todo o combustível radioativo ainda existente dentro deles.

“Quando a decisão de fechar Chernobyl foi tomada, a Ucrânia não estava preparada para isso, seja do ponto de vista organizacional, seja técnico ou financeiro”, comentou o funcionário. O diretor da central nuclear disse também que, no ano passado, por ocasião do 29º aniversário do acidente, o presidente Petró Poroshenko criticou a falta de uma cooperação científica e técnica entre Rússia e Ucrânia em torno do caso da central atingida. “A segurança nuclear é um campo de atividade que está além das relações políticas”, afirmou.

A região de Chernobyl, segundo explicou, pode ser utilizada para duas diferentes atividades: o tratamento de materiais radioativos ou a construção de instalações para produção de energia alternativa, em especial energia solar. A ideia de se construir uma área verde no local da central é vista como inadequada devido ao alto teor de contaminação existente em torno dela, em um perímetro de dez quilômetros, afirmou.

Rússia e Bielorrússia

Na Rússia, quinze regiões foram afetadas pela nuvem radioativa de Chernobyl. A radiação continua muito elevada em alguns pontos que o Governo russo excluiu das zonas mais atingidas, segundo afirmou Alla Yaroshinskaya, ex-deputada da URSS e autora de várias obras sobre Chernobyl. Segundo ela, 554 localidades foram retiradas em 2015 da relação de territórios atingidos, o que significa a perda dos subsídios recebidos por seus habitantes. Yaroshinskaya cita a cidade de Novozyvkovo e outras áreas de Briansk, uma província onde se realizaram manifestações contra a decisão governamental. Em 1997, os habitantes da região se rebelaram quando as autoridades tentaram rebaixar o estatuto das regiões atingidas, e a Justiça lhes deu ganho de causa. Agora, isso foi negado, conta Yaroshinskaya. Em Moscou, o presidente da associação de Chernobyl, Andrei Grushenkov, afirmou que as autoridades municipais pretendem expulsar a associação Chernobyl Moscou (que tem 12.500 membros) dos locais que ocupa atualmente de forma gratuita em virtude de um acordo com o prefeito anterior da capital. Parte dos subsídios recebidos pelos cidadãos russos afetados por Chernobyl foram extintas desde 2004.

A Bielorrússia foi, proporcionalmente, o país mais atingido pelo acidente (23% da área do país, especialmente as regiões de Gómel e Magiliov, onde viviam 2 milhões de pessoas). Cerca de 1,4 milhão de pessoas (12% do total da população) viviam na zona contaminada (dado de 1 de janeiro), segundo a agência russa de notícias Tass. Apesar disso, a Bielorrússia parece ser o país mais disposto a enterrar o acidente: ela constrói, atualmente, a sua primeira central nuclear com tecnologia russa e planeja reinstituir a produção agrícola em uma região atingida pela tragédia, segundo afirmou nesta segunda-feira em Minsk o ministro das Relações Exteriores, Vladimir Makei. Na sua avaliação, “podemos chorar, sofrer e lamentar, mas é preciso tentar mudar a situação” e escolher entre organizar a ajuda humanitária entre os atingidos e “tentar recuperar esta terra para viver e cultivar produtos aptos para o consumo”.

A Bielorrússia acumulou conhecimento e informação considerados únicos na superação de tragédias semelhantes a Chernobyl, segundo seu presidente, Alexandr Lukashenko.

O presidente da Ucrânia, Petró Poroshenko, será o único dirigente eslavo a recordar os acontecimentos no próprio local, nesta terça-feira, em Chernobyl. Em Kiev, em uma exposição de documentos políticos relativos ao acidente se encontra um comunicado enviado pelo secretário do comitê regional do partido comunista da província de Kiev, Grigori Revenko, a seus superiores imediatamente após o ocorrido. No texto, Revenko afirma que “não há risco para a população da cidade (de Pripiat)”. Dezenas de milhares de pessoas tiveram de ser retiradas dessa localidade, que se transformou em um lugar fantasma.

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