El Pais entrevista Drauzio Varella

DRAUZIO VARELLA | MÉDICO

Drauzio Varella, em seu consultório em São Paulo, em março de 2016 - foto - Fernando CavalcantiDrauzio Varella, o doutor tranquilo e favorável (e escritor e maratonista e apresentador…)

Aos 72 anos, o médico que virou referência, parou de fumar mas não de beber, e não consegue dizer ‘não’ a quem lhe pede conselhos

Marina Rossi

EL PAIS – São Paulo 23 ABR 2016 – 00:32 BRT

Drauzio Varella está chateado. Aos 72 anos, o médico mais conhecido do Brasil está há oito meses sem correr, esporte que pratica desde os 50.

“Machuquei o pé e vou ter que operar. Estou chateado com isso”, disse no início desta entrevista concedida em seu consultório particular no bairro Bela Vista, em São Paulo.

Apesar disso, está tranquilo. Ex-fumante – “fumei até os 36 anos”- Varella tem hoje fôlego de maratonista: às segundas, atende mulheres detentas na penitenciária feminina de São Paulo. De terça a quinta, está no consultório particular. Escreve uma coluna quinzenal para a Folha de São Paulo, outra para a revista Carta Capital, grava um vídeo semanalmente para o Fantástico, outros dois por semana para seu canal no Youtube. E abastece um site sobre saúde, além de publicar livros. O último que escreveu foi sobre lendas amazônicas voltado para crianças e que será lançado em breve. O próximo será sobre o presídio feminino, “uma espécie de Estação Carandiru feminino”, diz, mencionando seu best-seller que narrou as histórias de detentos no presídio paulistano que já foi o maior da América Latina, demolido em 2002, e que virou filme com Wagner Moura e Rodrigo Santoro.

E quando Drauzio Varella não está machucado e nem chateado com isso, também acorda às cinco da manhã para correr. “Dá uma sensação de paz, de otimismo e de autoconfiança”, diz, sobre a corrida. “O pessoal da minha geração, da faculdade, vive dizendo que os anos melhores já passaram. Eu não tenho essa sensação. Acho que [os anos melhores] estão por vir. Se você corre uma maratona, de 42 quilômetros, quando você acaba de correr você não sente que tá velho (risos). Objetivamente”, explica.

Se você também não tem nem a metade da idade dele e se sentiu vergonhosamente um preguiçoso ao saber de tudo o que ele consegue fazer, bem-vindo ao clube. “Se eu fosse jornalista hoje”, disse, quando perguntado o que faria para se livrar do estresse de uma redação, “eu correria”, falou. “Ô”, emendou. “Não fumaria de jeito nenhum. Não diria que não beberia, porque eu gosto de beber. Mas tem que ser controlado com bebida, né? Quem gosta passa do ponto com facilidade”, emendou.

“O pessoal da minha geração, da faculdade, vive dizendo que os anos melhores já passaram. Eu não tenho essa sensação. Acho que [os anos melhores] estão por vir”

Por ter uma agenda muito atribulada, esta entrevista levou alguns meses para ser agendada. Ele mesmo entrou em contato com a reportagem para acertar a data. Quando a voz dele se fez do outro lado da linha – “Alô, aqui é o Drauzio Varella” – foi impossível não achar que tratava-se de uma gravação para alertar sobre o mosquito que transmite a dengue e o zika vírus. A pedido do ministério da Saúde, Varella fez um vídeo no início do ano para alertar sobre os perigos da doença. “A velocidade com que essa doença se disseminou me assustou”, disse. “Mas não acho que teria como prevenir a epidemia. A única solução é controlar o mosquito“.

Varella não é jornalista, mas alia a profissão de médico com a de comunicador desde a década de 90. Naquela época, auge da proliferação do vírus da Aids no Brasil, ele começou a gravar spots no rádio para falar sobre a doença. Aprendeu rapidamente a forma de transmitir a mensagem. “Eu percebi que dizer apenas ‘usem camisinha’, ou ‘façam exercício’ não significava nada”, conta. “Quem se sente atingido por essa mensagem? Você tem que dizer assim: ‘você, que come feijoada duas vezes por semana, vai na churrascaria três vezes por semana, tome cuidado com a obesidade e a hipertensão”. A lição serviu e ele aprendeu a se comunicar com diferentes públicos. Hoje, sua página no Facebook tem mais de 2,5 milhões de seguidores e o canal no Youtube, mais de 200.000 inscritos. “Gosto muito da internet”, diz. “É um canal de comunicação legal, porque essa meninada que segue no Youtube não assiste ao Fantástico”, citando o programa televisivo que sempre foi referência em reportagens médicas para a grande massa.

Por ser muito conectado, ele acredita nos benefícios do Doutor Google – o hábito que as pessoas têm atualmente de buscar sintomas de doenças na internet e chegar a um diagnóstico sozinhas. Para ele, o acesso a informação que a rede proporciona é positivo. O problema, alerta, é a fonte da informação, muitas vezes, sem credibilidade. “Aí aparece uma pessoa que fala que tomar chá de pitanga melhora o colesterol. Aí sai todo mundo tomando chá de pitanga. Quando é chá de pitanga, até tudo bem, mas tem coisas que prejudicam, causam problemas de saúde”, explica. “Mas quando são informações de gente preparada, de instituições, eu acho ótimo”.

“Quando você aparece na televisão, você tem que ter consciência que está entrando na casa das pessoas. Então o público te considera uma pessoa íntima e te trata com intimidade”

Por ser um rosto conhecido, o médico vive sendo abordado na rua. “A televisão é um pacote”, diz. “Quando você aparece na televisão, você tem que ter consciência que está entrando na casa das pessoas. Então o público te considera uma pessoa íntima e te trata com intimidade”. Essa relação íntima com desconhecidos leva Varella a situações embaraçosas, como, por exemplo, as consultas em lugares inusitados que ele se vê obrigado a dar. “Dou muita consulta na calçada”, diz. “Em todos os lugares, na verdade. No banheiro público, por exemplo. É muito comum, porque no banheiro você para, né? E banheiro de homem é privacidade zero. As pessoas falam ‘doutor, tô com uma coisinha aqui’, quando estão no mictório. Aí você tem um pouco de vergonha, mas você para e vê, né?”, diz, rindo.

Ciência

Drauzio Varella não sustenta teorias sem base na ciência. Para ele, se não há um estudo científico sério e aprofundado sobre algum tema, não é possível tirar conclusões precipitadas. “Dizem que carne vermelha é um veneno né? Tem algum estudo sério com grupos que comem carne e grupos que não comem? Nunca foi feito. De onde tiraram essa ideia?”, questiona. Essa filosofia o faz desmistificar alguns temas, como, por exemplo, o consumo de alimentos taxados de mais saudáveis. “Uma vez eu descobri um grupo de pessoas que dizia não comer nada que tivesse DNA. Como o quê, então? Pedra, né?”, disse, rindo.

“Dizem que carne vermelha é um veneno né? Tem algum estudo sério com grupos que comem carne e grupos que não comem? Nunca foi feito. De onde tiraram essa ideia?”

Nessa mesma linha, ele explica que não há uma pesquisa profunda e séria sobre as vantagens de se consumir alimentos orgânicos. “Além disso, o corpo humano tem uma capacidade muito grande de se livrar de pequenas agressões. Nós lidamos muito bem como venenos em doses baixas”, diz. “Se você me disser ‘eu só como coisas orgânicas’, tudo bem. Se você se sente bem assim, vai pagar mais caro, mas tudo bem”.

Com tudo isso, Varella não tem restrições alimentares e come de tudo. “Só não como doce”, porque lhe dá azia. E não toma café depois do meio dia. “Interfere no sono”, diz. “A cafeína fica muito tempo na circulação: doze horas é o tempo que você leva para excretar metade da dose da cafeína que ingere”.

Polêmicas

Falar sobre temas tidos como polêmicos na internet tem seu preço. A alimentação é um desses assuntos. “Há umas ideologias nesta área que são tão radicais quanto as ideologias políticas. Ou mais até”, diz ele. O aborto, claro, é outro, muito mais sério já que esse é um assunto tabu no Brasil. Sempre que o médico fala sobre esse tema, recebe uma enxurrada de críticas outra de mensagens o apoiando. “Ninguém é a favor do aborto. Se você tiver um dia ter que fazer um aborto, você não vai ser a favor dele, muito pelo contrário, você vai ser obrigada por alguma razão pessoal e vai sofrer muito com isso”. Para ele, o aborto no Brasil é livre. “Não tem uma mulher que não conheça alguém que tenha feito um aborto. É livre. E quem, de fato é penalizada? Aquelas que não têm acesso [a uma clínica particular] e correm muito mais riscos”.

E por que, em pleno 2016, ainda convivemos com essa hipocrisia? “Primeiro, porque quem faz as leis são homens”, diz. “Se o Congresso fosse feito por mulheres, as coisas mudariam. Não tenho dúvida. As mulheres têm uma compreensão desses problemas mais humanos”.

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