Brasil no Mundo – Não Somos Grandes, mas Somos Necessários

“Estão faltando grandes homens”, diz o embaixador Marcos Azambuja

O ex-secretário-geral do Itamaraty defende a lisura do processo de impeachment e prega o diálogo, independentemente do lado que saia vitorioso

ÉPOCA – SAMANTHA LIMA
O embaixador Marcos Azambuja (Foto: Urbano Erbiste / Agência O Globo)
O embaixador Marcos Azambuja (Foto: Urbano Erbiste / Agência O Globo)

Aos 81 anos, o diplomata Marcos Azambuja mostrou-se reticente ao ser procurado por ÉPOCA para falar sobre o Brasil após o processo de impeachment. Ex-embaixador na França e na Argentina e ex-secretário geral do Itamaraty, ele temia emitir uma opinião precipitada. “Na minha idade e na minha profissão, nada mais perigoso do que ir depressa demais. O jogo não está jogado e a história tem de acontecer”. Ao ser informado de que as perguntas não buscavam um veredicto, mas, sim, apenas identificar quais caminhos o país deveria construir depois do processo, ele aceitou falar. Para Azambuja, o Brasil tem enfrentado o processo de impeachment com respeito às instituições. Mas faltam “grandes homens” para fazer a costura política. “Teria que haver uma mistura de alguém com os perfis de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck e Rui Barbosa”, diz ele.

ÉPOCA – Como o mundo tem visto o processo de impeachment no Brasil?
Marcos Azambuja –
O Brasil tem uma boa torcida externa e é bem quisto, por sua história, pelo temperamento nacional e pela ausência de inimigos clássicos. Há uma ideia, lá fora, de que o Brasil vinha de um período de euforia e que agora vive um inferno zodiacal tanto econômico quanto político. Foi uma crise criada por ele mesmo, já que o mundo vai bem. Ninguém acha que seja fácil, mas há expectativa de que o Brasil mostre neste momento sabedoria e tenha um pouco de sorte. O país é suficientemente grande para que um acidente com ele prejudique a ordem internacional. Qualquer que seja o resultado, o Brasil sai machucado, dividido e um pouco humilhado. Tivemos a sorte de que Pedro I foi embora, Pedro II foi embora, Collor aceitou o afastamento, e esperamos que neste momento haja, de novo, grandeza, seja qual for o lado perdedor. Senão, vamos ter uma ou duas gerações ressentimentos, e você não sabe como isso envenena.

ÉPOCA – Uma das virtudes que ajudaram a projetar o Brasil nos anos de pujança foi a ideia de que tínhamos instituições sólidas. O impeachment, de certa forma, muda isso?
Azambuja –
Até agora, tudo está preservado – a imprensa, os tribunais, os partidos políticos. Até com a economia combalida, Brasil está funcionando, ainda que machucado. O país sai fortalecido institucionalmente. Essa imagem de uma Curitiba em que acontecem julgamentos e o Brasil continua andando me deixa orgulhoso. Outros países já teriam levado essa crise a enfrentamentos pessoais. Até agora manifestações imensas foram de muita razoabilidade. Tenho medo de que possa haver uma degradação, mas até aqui foi exemplar.

ÉPOCA – O senhor acha que neste domingo poderá haver uma degradação?
Azambuja –
Estou preocupado, pode haver. O problema é quando um grupo perde a esperança, e é o que pode acontecer.

As principais cartas do jogo do impeachment

ÉPOCA – Independentemente de resultado, quais pontes deverão ser reconstruídas interna e externamente?
Azambuja –
No campo externo, há menos a ser reconstruído, porque não é uma crise mundial repercutindo aqui. O Brasil tem produção agropecuária imensa, tem população ordeira. Se o Brasil não der certo, o mundo não vai dar certo, porque perderá um de seus grandes modelos. Somos a síntese do mundo, desiguais e multirraciais. Internamente, há muitas pontes a fazer. Conversar, mais do que nunca, e não aceitar o jogo maniqueísta do bem contra o mal, eles contra nós. Temos que diminuir isso, porque dividir o país em duas facções leva um tempão para se reabsorver. Estão faltando grandes homens. Teria que haver uma mistura de alguém com os perfis de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Rui Barbosa. O que eu queria é que já estivéssemos na outra margem do Rio, já feito a travessia. Não quero vingança, só quero que o Brasil saia inteiro e sem ressentimentos.

ÉPOCA – A presidente Dilma Rousseff disse que, uma vez derrubado o impeachment, proporia um pacto. Do que ela precisa para obter sucesso?
Azambuja –
O Brasil tem sido mal governado pela Dilma, mas incompetência não é crime. O problema é a burrice, a arrogância, essa senhora tem defeitos de inteligência muito graves e tem temperamento combativo. Ela, no fundo, não é muito brasileira no jogo de cintura, de ver que o outro tem razão, que é o que nos tem protegido até hoje. Ela tem certezas simplistas. A reconstrução começa por ela mesma. O ideal é ter a sabedoria mineira. Se eu pudesse, hoje reencarnava o Tancredo Neves. É do jeito dele e do Juscelino que precisamos, de um Brasil movido por otimismo e afetos, sem intolerância. Juscelino e Tancredo tinham a cara de quem queria se dar bem com todo mundo. Lula tem qualidades, é um líder indiscutível. É o único que, do lado do governo, tem estatura. O Jaques Wagner é um bom político, sabe do jogo. No fundo é conversa. Tancredo dizia que política é namoro com homem. Você segura a mão, conversa… Já Dilma o dedo sempre está em riste, tratando as pessoas por “meu filho, minha filha”.

ÉPOCA – O jornal “Financial Times” disse que o impeachment pode levar o país ao caos. Há realmente uma preocupação internacional com isso?
Azambuja –
Não descarto, mas não é provável. Há 500 anos o Brasil sai de crises com racionalidade. Tive, a partir dessas manifestações, a impressão de que temos um país mais amadurecido. Tenho é um medo de convulsão.

O primeiro dia da sessão da votação do impeachment de Dilma

ÉPOCA – Qual é sua avaliação sobre o rito e o mérito desse impeachment?
Azambuja –
Ele vai ser cumprido com formalismo. Só temos que segurar para não ter governo de exceção, de comportamento extrademocrático. Tem de haver um formalismo de apoio ao estado de direito. O Brasil não está em condição de brincar com as instituições. O que nos segura é que estamos conduzindo isso pela via de uma democracia plenamente estabelecida por leis.

ÉPOCA – Mesmo que esse processo seja conduzido por muitos políticos investigados por supostos crimes, inclusive na Operação Lava Jato?
Azambuja –
Tenho medo de uma Justiça leniente demais ou severa demais. Não creio que seja bom prender pessoas por muitas semanas ou meses sem julgar. Tenho medo de sairmos de uma leniência excessiva para uma severidade excessiva.

ÉPOCA – As inúmeras prisões recentes da Operação Lava Jato corroboram suas preocupações?
Azambuja –
A Mani Puliti [Operação Mãos Limpas, empreendida na Itália nos anos 90 que prendeu inúmeros políticos por corrupção] acabou prendendo centenas e até milhares de pessoas. Não é por aí. Em “O alienista”, de Machado de Assis, o protagonista vai enchendo o hospício de gente. De repente, tem tanta gente no hospício que ele solta todo mundo e se põe no hospício. Agora, fiquei impressionado com a qualidade do tipo de trabalho que faz a Policia Federal, Ministério Público, o Supremo Tribunal Federal. Tem excesso, mas tem muita integridade.

Tempo para falar em sessão do impeachment gera ciúmes em deputados

ÉPOCA – No campo econômico, o que precisa ser feito para recuperarmos a projeção internacional?
Azambuja –
Vai levar anos para botarmos a casa em ordem. O estrago fiscal é grande, cometeram abusos indescritíveis. O Brasil tem dívidas, gastos, excessos. Pensei que, com a Lei de Responsabilidade Fiscal estávamos fora disso. O jogo eleitoral foi perverso e se gastou mais do que se tinha. Por outro lado, o país tem uma economia agropecuária de comércio importante, o câmbio está saudável, a ordem pública está mantida. O mundo quer o Brasil bem, comprando e vendendo. Eu achei que, com minha idade, não veria outro ciclo de crise econômica. Depois de todo o caminho superado para o equilíbrio fiscal e para a estabilidade econômica, não iríamos fazer bobagens. Meu medo é ter pouco tempo de vida para assistir a um novo renascimento. O economista Eugenio Gudin dizia que só teve uma amante, o Brasil, que o enganou a vida inteira. Nossa relação com o Brasil é ser traído por ele.

ÉPOCA – O senhor acha que o mundo absorveu a mensagem de crise que o governo tentou passar por meio de entrevistas coletivas a veículos internacionais e até com esforço pessoal de um funcionário do Itamaraty?
Azambuja –
Aquilo no Itamaraty foi um papelão. Essa mensagem de golpe não foi recebida. O que houve foi um silencio constrangido.

ÉPOCA – A crítica por parte de países do Unasul [12 países na América do Sul] ao processo do impeachment amplificou essa mensagem?
Azambuja –
Não teve repercussão. A América que está dando certo é a colombiana, a mexicana, a chilena, que fizeram a transição para um modelo econômico competitivo. Todo mundo com quem converso quer que o Brasil atravesse isso depressa, porque não somos um grande ator mundial, mas somos necessários. Não somos decisivos, mas tampouco desimportantes.

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Um comentário em “Brasil no Mundo – Não Somos Grandes, mas Somos Necessários

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