A Vida dos Jornalistas Políticos do Brasil

Jornalistas contam como suas rotinas são afetadas pelas notícias

Coberturas podem exigir que profissionais fiquem no ar durante horas

POR NATALIA CASTRO – O Globo

Jornalistas - Cristiana Lôbo e Renata Lo Prete, da GloboNews; Lidiane Shayuri, da Record News; e Bianca Rothier, correspondente da GloboNews na Suíça - Divulgação
Cristiana Lôbo e Renata Lo Prete, da GloboNews; Lidiane Shayuri, da Record News; e Bianca Rothier, correspondente da GloboNews na Suíça – Divulgação

RIO – Antes de dormir, Cristiana Lôbo senta na frente do computador para jogar paciência. Nas últimas semanas, esta é a forma que a jornalista vem encontrando para desopilar o excesso de trabalho, desde que a crise política culminou no país. Comentarista do assunto, Cristiana dá expediente na GloboNews, canal em que participa de vários programas jornalísticos ao longo do dia. Entre as novidades que acontecem a cada momento, já precisou até dar notícia que tinha acabado de receber pelo telefone. Dia desses, estava ao vivo com Leilaine Neubarth quando recebeu uma mensagem.

— Quando me focalizaram, eu olhava o celular. Leilane perguntou se eu tinha algo de novo, e falei em primeira mão da prorrogação da prisão do João Santana (o marqueteiro do PT) — relembra.

AO VIVO POR HORAS A FIO

Há mais de 30 anos cobrindo política, ela já se acostumou com as muitas horas seguidas no ar. E aprendeu a lidar com as críticas de quem a vê o dia todo:

— É fácil alguém dizer que não gostou do que ouviu. O problema é quando falamos uma coisa que vai parar na internet de forma distorcida, pois as pessoas querem que você fale o que elas estão pensando. Eu busco ser justa. A gente critica e pode ser criticado.

Passar o dia grudado nos sites de notícias e nas sessões do Congresso é rotina cada vez mais comum não só para Cristiana. Seus companheiros de canal Gerson Camarotti, Renata Lo Prete e Andréia Sadi vêm enfrentando uma maratona política na frente das câmeras. E apesar da disposição, o cansaço muitas vezes se torna evidente.

— No final de 2015, senti uma fraqueza no ar e percebi que, na correria, não estava me alimentando o suficiente. Prometi a mim mesma que nunca mais passaria fome, e tem funcionado. Assim como dormir sempre que deixam. Nunca é o bastante, porque a política vara a noite, e a Lava-Jato acorda cedo. Mas não desperdiçar as oportunidades já ajuda — afirma Renata Lo Prete, a editora de política do “Jornal das dez”. — E para quem ama notícia, não há como desligar agora. Eu não tenho vontade de desligar.

Exatamente para não perder um minuto do que pode acontecer, Andréia Sadi é precavida. A repórter que faz cobertura de rua em Brasília diz que se salva pela organização:

— Vou equipada com lanches. E procuro sempre almoçar, já que jantar é mais difícil porque chego cansada.

E em tempos de crise, a solução é a criatividade para lidar com os afazeres. Na semana passada, por exemplo, ela precisava buscar uns exames no médico. Atropelada pelo noticiário, a solução foi adicioná-lo no WhatsApp.

— Expliquei a situação, e ele me mandou o resultado pelo aplicativo — diz Andréia.

O telefone, aliás, vem se tornando um companheiro inseparável nessa movimentação:

— É até um problema com marido e amigos. Mas tenho uma regra de que todo mundo tem 40 minutos por dia, então dou um jeito e vou para a academia. É minha válvula de escape — explica.

Gerson Camarotti - em dias tensos, o jornalista da GloboNews dorme apenas quatro horas - Miguel Sa - Divulgação
Gerson Camarotti – em dias tensos, o jornalista da GloboNews dorme apenas quatro horas – Miguel Sa – Divulgação

Para Camarotti, a melhor forma de desanuviar é em casa. Ele conta que vem evitando sair não apenas para se poupar do cansaço, mas para evitar a exposição das opiniões.

— Onde você chega, isso vira assunto. Por isso, opto pela calmaria — avalia ele, que já teve que faltar um casamento, um seminário internacional e um evento da GloboNews por conta do noticiário pesado: — Minha cobertura é presencial, exaustiva. Os fatos acontecem o tempo todo. Eu acompanho os horários das fontes, tem gente que só pode falar antes das 7h. Eu fico 24 horas ligado, e tenho insônia. Num dia tenso, durmo só quatro horas. Ir ao banheiro, muitas vezes, só quando termina um programa

Os jornalistas Lidiane Shayuri e Clébio Cavagnolle, da Record News, sabem bem disso. Eles apresentam as duas edições diárias do Link Record News — às 11h e às 15h — e já estão acostumados com as horas a fio ao vivo.

— Parece que está passando um furacão. Como muita coisa acontece à tarde, o jornal vai ficando interminável. O cansaço mental é gradativo. Eu saio à noite para dar uma caminhada ou pedalada — conta Clébio.

Lidiane fala que precisou se inteirar das expressões jurídicas para acompanhar os julgamentos e poder repassá-los, de forma didática, ao espectador.

— Para os políticos, é parte do cotidiano. Eu acho importante entender e mastigar isso — explica. — Todo mundo precisa descansar mente e corpo, mas a gente fica dividido: é um momento histórico que nos intriga enquanto profissionais.

Se aqui as manchetes políticas são o assunto mais comentado, os recentes ataques terroristas em Paris, em novembro de 2015, e em Bruxelas, no último dia 22, deixaram os correspondentes Pedro Vedova, da Globo, e Bianca Rothier, da GloboNews, em estado de alerta.

CHORO COMPULSIVO

Para Pedro, que tem Londres como base, uma grande questão é manter o foco nas transmissões ao vivo, entre tantos personagens interligados, nomes estrangeiros e pessoas nervosas:

— Tudo joga contra. Mas, em coberturas como essas, parece que baixa uma espécie de anestesia que mantém nosso foco, mas que sufoca nossa sensibilidade. O clima é pesado. Lembro de chorar compulsivamente numa madrugada em Paris — relata ele. — Aprendi com um cinegrafista que se tiver água é para beber, banheiro é para usar, comida é para comer. Você nunca sabe quando será a próxima oportunidade.

No estresse, Bianca Rothier, que fica na Suíça, entrega que “já perdeu as contas” de quantas vezes trocou o refeição por um barra de chocolate, “seu combustível”. Mas distrair a cabeça, para ela, é a parte mais complicada:

— Retomar a rotina não é simples. Esta semana amigas me convidaram para um festival de música. Tentei me imaginar lá, mas não consegui. Celebrar o que depois de tanta dor?


 

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