Eleições 2014 para Presidente – Análise

Velha polarização sufoca terceira via no início da campanha

Candidatura de Eduardo Campos patina sem decolar, enquanto Aécio se aproxima de Dilma e reedita antiga disputa entre tucanos e petistas

18/07/2014 16h41 – Atualizado em 18/07/2014 19h09
Os candidatos: Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) (Foto: ABr/Agência Senado/ABr)
Os candidatos: Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) (Foto: ABr/Agência Senado/ABr)

Desde a eleição de 1994, dois partidos – PT e PSDB — monopolizam as disputas presidenciais no Brasil. De tempos em tempos aparece uma terceira força política tentando quebrar essa polarização. Foi assim com Ciro Gomes, em 2002, e com Marina Silva, em 2010. Neste ano, surgiu um candidato fortíssimo ao posto de terceira força política: Eduardo Campos, tendo como vice Marina Silva. Era a união entre o governador mais popular do país e uma líder que, na eleição passada, obteve 20 milhões de votos. Um casamento promissor numa eleição em que, segundo as pesquisas, 80% dos eleitores desejam mudanças na política. A última pesquisa do Datafolha, divulgada na quinta-feira (17), mostrou, no entanto, que a candidatura de Campos patina em 8% dos votos, enquanto Dilma (36%) se mantém na frente seguida por Aécio (20%). A pouco mais de dois meses da eleição, o cenário se encaminha para uma nova polarização entre PT e PSDB. No cenário com Dilma e Aécio no segundo turno, pesquisado pelo Datafolha, ocorreu empate técnico. O que deu errado na construção da terceira via?

Os líderes do Partido Socialista Brasileiro, de Eduardo Campos, quebram a cabeça diariamente com o objetivo de mudar a história e chegar a outubro com uma candidatura viável. “Quebrar a cabeça” é bem o termo: o partido de Campos lida com uma equação complexa.

De um lado, eles cortejam os eleitores desencantados com a política tradicional – os 20 milhões de marineiros de 2010 e os novos que surgiram desde então. Para isso, precisam se afastar das velhas lideranças, consolidando-se realmente como uma “terceira força”. De outro lado, precisam fazer alianças regionais para que a candidatura decole. Mais do que isso: alianças que mostrem, claramente, que Eduardo Campos deixou de ser um apoiador para se tornar opositor do governo federal. Enquanto Campos vacila, Aécio faz alianças – e sobe nas pesquisas.

bandeira brasileira e palácio do planaltoOs casos da Bahia e do Rio Grande do Sul – os dois maiores colégios eleitorais brasileiros fora do Sudeste – ilustram essa dificuldade. Na Bahia, Campos esteve próximo de fechar aliança com o forte PMDB local,  cujo candidato ao governo era o deputado Geddel Vieira Lima. Enfrentou, no entanto, a resistência de Marina, que considerava Geddel “velha política” demais. Enquanto Campos hesitava, Aécio fechou uma costura de mestre. Fomentou a união entre Geddel e ACM Neto, do DEM. Neto apoiará Paulo Souto (DEM) para o governo e Geddel para o Senado – e ambos apoiarão Aécio. Com isso, o tucano se tornou, na Bahia, o grande opositor do governo federal, que apoiará o situacionista Rui Costa (PT), o candidato do governador Jaques Wagner. Restou ao PSB um palanque próprio, mas provavelmente pequeno, com Lídice da Mata.

No Rio Grande do Sul, Campos flertou com Ana Amélia Lemos, do PP. Marina a considerou conservadora demais. Com isso, Ana Amélia acabou fechando uma coligação com Aécio. Numa eleição que deverá se polarizar entre ela e o petista Tarso Genro, Aécio terá um dos dois maiores palanques no Estado.

“Campanha tem que ter prosseguimento nos dias seguintes à ida do candidato ao local”, diz o senador José Agripino (DEM-RN), coordenador nacional da campanha de Aécio. “O segredo de manter a campanha viva é o endosso dos candidatos proporcionais”. Em termos de coligações regionais, Campos teve desempenho melhor em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, o PSB apoia a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Ele terá que dividir o palanque com Aécio, mas abraçou um candidato promissor – na última pesquisa Datafolha, Alckmin apareceu com 54% das intenções de voto. No Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país –e onde o cenário para os segundo turno ainda não está claro — Campos está ao lado de Lindbergh Farias (PT).

calendário eleições 2014Enquanto isso, na coordenação da campanha presidencial do tucano Aécio Neves, a sensação é de que as últimas semanas foram muito positivas. A campanha joga todas as fichas na articulação política.  “Os palanques estão muito bem estruturados. Não tem comparação com os de José Serra e de Alckmin nas eleições presidenciais anteriores”, diz o coordenador Agripino. Uma reunião envolvendo todos os coordenadores estaduais da campanha de Aécio pelo país será realizada nesta semana para a definição de diretrizes e prioridades. A coordenação nacional quer garantir o envolvimento dos candidatos a deputado federal e estadual de todas regiões do país.

A ideia da coordenação nacional é que sejam realizados vários encontros com segmentos da sociedade em diversos locais do país. “Médicos, agronegócio, engenheiros, sindicatos. É muito maior o envolvimento de categorias sociais em torno da campanha dele. Em nenhuma campanha anterior se viu isso”, diz Agripino. “Até o início da propaganda na TV o roteiro é de viagens, com prioridade para São Paulo e Nordeste. Vamos trabalhar as redes sociais intensamente e temos de ter criatividade para criar fatos novos”, diz o deputado federal Marcus Pestana (PSDB), um dos principais interlocutores de Aécio no partido.

Entusiasmado, Pestana acredita que os quatro principais objetivos da pré-campanha foram cumpridos. “Primeiro, unificar o PSDB. Segundo, criar uma coligação consistente que garantisse tempo de TV suficiente para um raciocínio com começo, meio e fim. Terceiro, Aécio estar destacado em segundo lugar. Quarto, disseminar divergências na base de Dilma”, diz o deputado mineiro. Além de atrair o PTB, antigo aliado do PT, o presidenciável tucano conseguiu criar fissuras nos partidos da base. “Como a política é xadrez, você vai desorganizando as tropas do aliado e você vai ganhando. Nós conseguimos, por exemplo, a dissidência do PP no Rio Grande do Sul e do PMDB no Rio, na Bahia e no Ceará”, diz Pestana.

Sem decolar

A percepção dentro do PSB que Campos cresceu “muito menos” do que se imaginava até agora. A esperança é que, com o início dos programas eleitorais na TV, a imagem de Marina se una a de Campos para o grande público, principalmente a classe C, na qual, segundo as pesquisas do PSB, Marina tem mais influência. Caso as expectativas de crescimento não se concretizem e Campos não vá para o segundo turno, uma ala expressiva do PSB defende o apoio ao tucano Aécio Neves.

Na campanha do tucano, porém, há o receio de que, uma vez desidratada e sem perspectivas de vitória, a candidatura Campos se transforme numa espécie de linha auxiliar do PT e de Dilma ainda no primeiro turno. Os estrategistas da presidente querem, inclusive, forçar a polarização com o PSDB para abafar completamente a possibilidade da terceira via. Avaliam que, com isso, Dilma pode até ser reeleita no primeiro turno. Campos mantém boa relação com Luiz Inácio Lula da Silva e não tem economizado elogios ao ex-presidente. Caso o segundo turno aconteça entre Dilma e Aécio, será Lula o encarregado de tentar uma reaproximação com Campos e o PSB, partido que desde 1989 apoiou o PT nas disputas presidenciais e só se despregou do bloco governista no ano passado.

A tentativa de quebrar a polarização PT-PSDB é antiga e, até agora, sem sucesso. Começou em 1989 – na primeira eleição desde a ditadura militar que permitiu aos cidadãos brasileiros escolher seu presidente – com o então candidato Leonel Brizola (PDT).

Naquele ano, Brizola teve um desempenho surpreendente: por meio ponto percentual a menos que o segundo colocado, o ex-presidente Lula, não foi para o segundo turno. A partir daí, perdeu força política e, na eleição seguinte, em 1994, foi derrotado com votação insignificante. “A elite política paulista é muito forte”, afirma o cientista político Cesar Romero Jacob, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e autor do livro “A geografia do voto nas eleições presidenciais no Brasil: 1989-2006”. “É muito difícil algum candidato sem base em São Paulo conseguir compensar esse déficit fora.”

O roteiro de bom desempenho e queda no pleito sucessivo tem sido repetido por todos os candidatos da terceira via desde então: Enéas Carneiro, Ciro Gomes, Anthony Garotinho e, mais recentemente, Marina Silva. “A terceira via não existe no Brasil”, diz Jacob. “O que existe são terceiros colocados sem forças para prosseguir. E o mais curioso é que eles não têm nada em comum”.

Dentro dessa teoria que Jacob chama de maldição do terceiro colocado, agora é a vez do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) angariar votos em 2014 para, em seguida, desaparecer. Aliado ao governo do PT nos últimos onze anos, Campos aposta nas coligações regionais para ganhar palanque e aumentar suas chances de ir para o segundo turno. Em São Paulo, o PSB apoia a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB); no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, está ao lado da candidatura de Lindbergh Farias (PT); em outros oito Estados, pessebistas compõem chapa com o PMDB. “Ele só terá alguma chance se a máquina do governador Alckmin resolver trabalhar para o Campos, em vez de apoiar o Aécio”, diz Jacob.

A um mês do começo da campanha na TV – a coligação de partidos que apoia a candidatura à reeleição da presidente Dilma terá 11 minutos e 48 segundos em cada bloco de 25 minutos da propaganda eleitoral de rádio e televisão ao dia, diante de 4 para Aécio e 1 para Campos –, aliados do PSB avaliam que Campos precisa se tornar mais conhecido para sua candidatura decolar.

É um período decisivo para o partido. O discurso oficial, entretanto, é de tranquilidade. “Ele vai crescer na hora certa”, afirma o deputado federal Beto Albuquerque (RS), líder do partido na Câmara e braço direito de Campos. A hora certa, diz, tem início no dia 4 de agosto, quando os telejornais da Rede Globo passarão a destinar um minuto por candidato para a cobertura das agendas dos presidenciáveis. “No nosso caso, vale muito mais do que a campanha na TV”, diz. “Nossa tarefa agora é nos tornar conhecidos. Como o já ganhou é primo do já perdeu, continuamos firmes”.

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