O Povo permite ser escravizado – Étienne de La Boétie

Discurso Sobre a Servidão Voluntária – Livro estudado em uma disciplina ministrada pela professora Marilena Chauí, e revisto com Olgária Mattos e Renato Janine Ribeiro, no Depto. de Filosofia da USP, entre 1991 e 93.

Em 1548, com apenas 18 anos de idade, o francês Étienne de La Boétie escreveu seu Discurso Sobre a Servidão Voluntária, um texto instigante e corajoso que sustenta a tese de que os escravos são servos por opção.  Amigo de Montaigne, La Boétie foi um dos primeiros a perceber que os governados eram sempre maioria em relação aos governantes, e que, por conta disso, algum grau de consentimento deveria existir para manter a situação de servidão.  O seu texto pode ser entendido como um ataque à monarquia devido ao contexto de sua época, mas não somente isso.  O próprio autor reconhece que o tirano pode ser eleito também, o que muda apenas a forma de se chegar ao poder, e não seu abuso.  O livro, portanto, é uma leitura essencial nos dias atuais, em que governos democráticos avançam sobre as liberdades mais básicas dos indivíduos.

Para La Boétie, “é o povo que se sujeita, que se corta a garganta, que, podendo escolher entre ser subjugado ou ser livre, abandona a liberdade e toma o jugo, que consente no mal, ou antes, o persegue”.  O pensador Edmund Burke diria algo semelhante depois, ao constatar que “tudo aquilo que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam”.  La Boétie via no direito natural do homem aquilo que ele tem de mais caro.  “Não nascemos apenas na posse de nossa liberdade, mas com a incumbência de defendê-la”, resume.  No entanto, ele constatou que o povo estava quase sempre inclinado a abandonar tal direito em troca de alguma sensação de segurança.  O tirano, então, chega ao poder, seja pela conquista ou pelos votos.  Mas La Boétie questiona: “Como tem algum poder sobre vós, senão por vós? Como ousaria atacar-vos, se não estivesse em conluio convosco?”.  Para ter liberdade, bastaria que o próprio povo fosse resoluto em não servir mais.  A escravidão acaba exigindo a sanção da vítima.

O que então explicaria essa servidão consentida? Para La Boétie, “todos os homens, enquanto têm qualquer coisa de homem, antes de se deixarem sujeitar, é preciso, de duas, uma: que sejam forçados ou enganados”. Ele parte então para a tese de que, no início, o homem serve vencido pela força, mas que depois serve voluntariamente, enquanto seus antecessores haviam feito por opressão.  Sem terem experimentado a liberdade, esses homens acabam escravos pelo costume.  La Boétie, antecipando David Hume e Franz Oppenheimer, conclui: “É assim que os homens nascidos sob o jugo, depois alimentados e educados na servidão, sem olhar para a frente, contentam-se em viver como nasceram, sem pensar em ter outro bem, nem outro direito senão o que encontraram, tomando como natural sua condição de nascença”.  Primeiro, o poder é conquistado à força; depois, o costume permite um ar de legitimidade, mantido pela ignorância e covardia dos escravos.

A revolta contra essa tirania nem sempre é amiga verdadeira da liberdade.  Para La Boétie, os vários atentados realizados contra imperadores romanos, por exemplo, “não passaram de conspirações de pessoas ambiciosas cujos inconvenientes não se deve lamentar, pois se percebe que desejavam não eliminar, mas remover a coroa, pretendendo banir o tirano e reter a tirania”.  Não foram poucos os casos na história de luta contra uma tirania estabelecida por outra tirania, muitas vezes até mais cruel.  Os bolcheviques são um claro exemplo disso, mas nem de perto o único.  Até a Revolução Francesa usou o nome da liberdade apenas para entregar Robespierre e seu Grande Terror em troca.  Mesmo no Brasil, tivemos comunistas lutando contra uma ditadura, mas que, no fundo, desejavam instaurar outra bem mais perversa, como aquela existente em Cuba. ( o texto é escrito por Rodrigo Constantino , claramente, uma mente de ‘direita’, mas a leitura em relação à servidão é excelente, por isso está aqui no blog, na categoria estudos)

Quando se entende que o tirano precisa do consentimento do povo, descobre-se porque todo tirano usa o ardil de embrutecer os súditos e atacar os homens de valor.  Nesse aspecto, a doutrinação é fundamental para os tiranos.  O “pão e circo” também são úteis para desviar as atenções.  “Os teatros, jogos, farsas, espetáculos, lutas de gladiadores, animais estranhos, medalhas, quadros e outros tipos de drogas, eram para os povos antigos os atrativos da servidão, o preço da liberdade, as ferramentas da tirania”, diz La Boétie.  E convenhamos: como o povo se vende por pouco! Se antes era assim, nada mudou na essência, apenas na forma.  O povo escravo vibra com o time campeão do mundo e troca liberdade por um tolo “orgulho nacional”. O escravo esquece que o governo lhe toma metade dos frutos de seu trabalho, preferindo relaxar no carnaval.  “Assim, os povos, enlouquecidos, achavam belos esses passatempos, entretidos por um vão prazer, que lhes passava diante dos olhos, e acostumavam-se a servir como tolos”, lamenta o autor.

As migalhas oferecidas em troca da liberdade não eram apenas jogos e distração, mas literalmente migalhas: “Os tiranos distribuíam um quarto de trigo…  e então dava pena ouvir gritar: ‘viva o rei!'” Há tanta diferença assim para um Bolsa-Família, programa assistencialista que, na verdade, é esmola em troca de voto? La Boétie percebeu que o governo, sem produzir a riqueza, precisa tirar antes de dar.  “Os tolos não percebiam que nada mais faziam senão recobrar uma parte do que lhes pertencia, e que mesmo o que recobravam, o tirano não lhes podia ter dado, se antes não o tivesse tirado deles próprios.” Não obstante, o populismo sempre rendeu poder e devoção, sentimentos que todos os tiranos buscam despertar em seus súditos.  La Boétie lembra que mesmo tiranos que destruíram totalmente a liberdade do povo foram homenageados pelas próprias vítimas, muitas vezes vistos como “Pais do Povo”.  Que tipo de covardia faz alguém amar o próprio algoz?

Além das distrações e das migalhas – um exemplo atual é o do restaurante popular -, os tiranos precisam oferecer uma rede de favores e criar cargos para sustentar a tirania com mais aliados.  A lista de oportunistas que bate à porta do governo para trocar liberdade por verbas seria infindável.  Desde artistas engajados, intelectuais, funcionários públicos e invasores de propriedades até líderes do “terceiro setor” ou mesmo empresários, todos em busca de uma teta estatal para mamar.  Os tiranos compram, assim, o apoio à tirania. “Em suma”, conclui La Boétie, “que se consigam, pelos favores ou subfavores, que se encontrem, enfim, quase tantas pessoas às quais a tirania pareça lucrativa, como aqueles a quem a liberdade seria agradável”.

Essa troca da liberdade por favores seria trágica por si só devido ao valor intrínseco que a liberdade possui. Mas, não obstante, La Boétie questiona que tipo de vida esses “escravos voluntários” levam, concluindo que não pode ser uma vida feliz.  “Qual condição é mais miserável do que viver assim, sem nada ter de seu, recebendo de outrem satisfação, liberdade, corpo e vida?” Além disso, ele afirma que a amizade verdadeira é impossível nesse contexto de tirania.  Ela, afinal, “só se encontra entre pessoas de bem e só existe por mútua estima; mantém-se não tanto por benefícios, senão por uma vida boa”.  “O que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento que tem de sua integridade”, acrescenta.  E reforça: “Entre os maus, quando se reúnem, há uma conspiração, não mais uma companhia; não se amam mais uns aos outros, mas se temem; não são mais amigos, mas cúmplices”.

As palavras escritas há quase cinco séculos por um culto jovem francês de 18 anos ainda ecoam como verdade nos dias atuais.  O povo parece não aprender a lição, construindo sua própria prisão e vendendo a corda usada para seu enforcamento.  Nasce escravo, vive na ignorância e não ousa desafiar seu senhor questionando sua legitimidade.  Aceita passivamente seus grilhões e até ajuda a colocá-los.  Na natureza, enquanto os animais lutam desesperadamente contra seu domínio, o homem, justamente o ser com maior capacidade de ser livre, acaba se submetendo passivamente à servidão.  Enquanto uma grande quantidade de pessoas estiver disposta a sacrificar a liberdade em troca de algumas migalhas e uma falsa sensação de segurança, conviveremos com a escravidão.

Essas ideias exerceram influência em Mises.  Em Theory and History, ele escreve que não há garantia de que as massas de seguidores farão bom uso do poder que desfrutam.  Elas podem rejeitar as boas ideias, aquelas que seriam benéficas para as próprias massas, e abraçar teses prejudiciais a si próprias.  Mas como Mises reconhece, se isso ocorrer, a culpa não é somente das massas.  É também culpa daqueles pioneiros das boas ideias que não souberam expor suas causas e pensamentos de forma mais convincente.  “No longo prazo, até mesmo os mais despóticos dos governos, com toda a sua brutalidade e crueldade, não são páreos para as ideias”, afirma Mises.  Eventualmente, a ideologia que conquistou o apoio da maioria irá prevalecer e destruir o chão que sustenta o tirano.  Os muito oprimidos irão destronar seus mestres através de rebeliões.  Mas Mises também sabe que tudo pode levar muito tempo, o que continuará causando danos irreparáveis enquanto a mudança não chega.  Eis mais um motivo para todos aqueles que defendem as boas ideias investirem nelas e esforçarem-se para divulgá-las da melhor forma possível.  O mundo é governado por ideias.  Que seja, então, guiado pelas boas ideias! Caso contrário, estaremos condenados a conviver sob uma servidão voluntária.

fonteInstituto Ludwig von Mises – Brasil (“IMB”) é uma associação voltada à produção e à disseminação de estudos econômicos e de ciências sociais que promovam os princípios de livre mercado e de uma sociedade livre.

Rodrigo Constantino é formado em Economia pela PUC-RJ e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, primeiro como analista de empresas, depois como gestor de recursos. É autor de cinco livros: “Prisioneiros da Liberdade”, “Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT”, “Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand”, “Uma Luz na Escuridão” e “Economia do Indivíduo – o legado da Escola Austríaca“.

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